quinta-feira, 15 de abril de 2010

D DEFICIÊNCIA NOSSA DE....

... CADA DIA : DE COITADINHO A SUPER-HERÓI
CAPITULO II
OBS: ESTA POSTAGEM REFERE-SE AO SEGUNDO CPÍTULO DO MEU LIVRO EDITADO EM 1992, E QUE SE ENCONTRA ESGOTADO, SÓ ENCONTRADO EM SEBOS. POR ESTE MOTIVO ESTOU REEDITANDO, E REESCREVENDO. PARA MELHOR ENTENDIMENTO LEIA AS POSTAGENS ANTERIORES

REAÇÕES

Toda deficiência alicia reações, primeiramente em sua grande maioria, negativas, porque a deficiência antes de tudo traz consigo grandes problemas para todo os envolvidos , desde o próprio individuo que sofre, a todos os que convivem ao seu redor (parentes, amigos e outros). Essas reações muito embora apresentem matizes diferentes, variando de pessoa para pessoa, de cultura para cultura, são mais ou menos padronizadas numa sequência, comum como veremos mais adiante.
O certo, entretanto, é que dependendo do contexto sócio, econômico e cultural em que o individuo se encontra a deficiência tem diferentes pesos. Durante nossa experiência na implantação de um projeto de REABILITAÇÃO SIMPLIFICADA , ocorrida na cidade de RIO CLARO-SP, sob nossa responsabilidade, tomamos contato com pessoas com déficit mental considerável, que seriam consideradas portadores de deficiência, entretanto, conviviam naturalmente como pessoas normais em seu meio. Trabalhavam e participavam ativamente do grupo social; enfim viviam o mais normal possível. Quanto muito, o grupo se referia a alguma de suas “esquisitices”.
A história e a antropologia nos contam que nas antigas civilizações e até os atuais dias, em sociedades tribais era e é comum a eliminação, pura e simples de seu elementos portadores de deficiência. Era e é o sacrifício de uma vítima, em função não só da coletividade, mas também do próprio indivíduo que iria sofrer muito mais em condições desumanas. Aliás, não se matam cavalos por questões humanitárias.
Em nossa sociedade ocidental-cristã,não é esta a prática, uma vez que a vida é um bem inalienável e pertence a DEUS. Confesso que fica difícil julgar qual o melhor procedimento, tendo em vista o tratamento quase desumano dispensado aos muitos portadores de deficiência que sobrevivem nos dias de hoje, sem contar que sobrevivência em condições de precariedade não condizem com a dignidade a que tem direito todo e qualquer ser vivo e que torna-se paradoxal com toda pregação humanista em defesa da vida a qualquer preço.
Esta nossa preocupação tem muito a ver com certas situações limites, onde o curso natural da vida levaria o individuo a óbito, e pela atual medicina o mesmo é mantido artificialmente vivo. Conhecemos um caso de jovem, acidentado, que está em coma profundo artificialmente mantido vivo há mais de oito anos. Será isto uma atitude humanista?
Outras situações limites exigiriam mais reflexões, pelo menos na forma do seu tratamento, que às vezes se torna um sofrimento desnecessário.

sábado, 3 de abril de 2010

DEFICIÊNCIA VESUS...

... “DEFICIÊNCIA”: A REALIDADE E A... FANTASIA

Alguém já disse que deficiente é o astrólogo que está sem a luneta. Na realidade podemos por extensão considerar uma deficiência, toda situação onde o indivíduo não consegue ou não tem meios de desempenhar determinada atividade comum aos seus pares.
Como já dissemos, a deficiência na sua forma mais genérica é determinada pela boa ou má relação com o meio onde se vive. Assim é que num determinado contexto onde inexiste a força da gravidade-onde as pessoas se locomovem flutuando a falta de uma perna ou até mesmo das duas, a rigor não se configura como uma deficiência, até pelo contrário poderia ser uma vantagem.
Podemos então falar de deficiência real, onde limites reais e bem definidos impostos por uma sequela limitante, com os quais o portador de uma deficiência terá de conviver. Por outro lado, falamos também numa deficiência, imaginária onde os limites são mais frutos de uma fantasia mórbida do que uma realidade dura e cruel, com veremos de forma clara no depoimento abaixo:
JOÃO CARLOS: “Precisamos também perceber, que existem “deficiências” que não são cientificamente definidas como tal, e, paralisam muito mais as pessoas”
Explicitando melhor o problema vem o depoimento a seguir, em relação a um a atividade específica:
MARILENE: “Eu tenho duas pernas e dois braços perfeitos e não consigo praticar esporte, que tanto desejo. É uma deficiência neste campo”
Como podemos perceber alguns entraves, geralmente gerados por processos educativos errados e não motivadores, causam também “deficiências” invisíveis, é claro, mas nem por isso menos frustrantes para quem as possuem. Geralmente o medo pelo “fracasso” num mundo extremamente competitivo é o grande causador de inúmeras “deficiências”. A consciência disto faz com que CLAUDIA sintetize em seu depoimento, muito bem, o objetivo que deveria nortear todo um processo de uma boa reabilitação.
CLAUDIA: “A deficiência poderá deixar de ser considerada como tal, na medida em que se conseguir levar a pessoa a se realizar em áreas em que ela possa desempenhar com competência e prazer”.
Podemos então inferir que existe uma grande diferença entre ser portador de uma deficiência e se sentir com uma deficiência. Exemplo mais evidente desta afirmação vem do fato que pessoas procuram mais, não a funcionalidade do aparelho auxiliar (órteses, próteses, etc.), mas a sua aparência externa. Outro fato marcante é a constante, fuga de situações, onde apesar da deficiência não atrapalhar , ela fica em evidência. Assim muitos amputados não vão à praia. Conheço um caso de uma pessoa amputada do membro inferior abaixo do joelho, portanto com uma marcha muito boa, escondeu tanto o fato, que seu filho, de 20 anos de idade, desconhecia a situação do pai.
A tendência excessiva, tanto da negação quanto da sua dramatização, leva a grandes distorções da realidade, dificultando ainda mais a reabilitação e reintegração, digamos pacífica do portador de deficiência ao seu meio. Podendo transformar uma deficiência “leve” em uma deficiência grave, as vezes até em uma invalidez.
O que acontece é que cada pessoa reage de formas diferentes, em situações análogas e por falta de uma boa orientação, tende-se, mais a padronizar reações negativas condicionadas por fatores sociais, do que pelo fato em si. Assim como toda deficiência é socialmente estigmatizante, o individuo portador de uma deficiência se sente automaticamente estigmatizado tendendo a partir deste fato ter seus sentimentos e comportamentos comprometidos. Assim uma mínima anormalidade, por falta de bons trabalhos de reabilitação, pode vir a se tornar uma incapacidade, com prejuízos pessoais e sociais de monta.