... FATOR DE DIFERENCIAÇÃO
Existem portadores de deficiência e PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS, muito embora essas duas expressões signifiquem a mesma coisa, eu as diferencio porque, a classe econômica a que pertencem é que vai dar o tom das dificuldades de adaptação do portador de uma seqüela limitante. Assim o portador de uma mesma seqüela pode ter mais ou menos dificuldades de se adaptar a sua nova vida.
Sabemos que num país como o nosso, com disparidades econômicas monstruosas, uma seqüela limitante influi e de forma substancial na capacidade de sobrevivência do individuo. Assim um trabalhador braçal,sempre de uma classe social baixa, que sofre um acidente com consequências limitantes, ele se encontrará posteriormente numa situação precária, pois não conseguirá mais emprego e ficará dependendo do sistema de previdência social que como sabemos é de má a péssima qualidade. É um PORTADOR DE DEFICIÊNCIA.
Enquanto isso, aquele indivíduo que possa sofrer o mesmo tipo de acidente, com o mesmo tipo de seqüela e que pertença a uma classe social mais alta e que tenha conseguido estudar melhor, passa a ter suas necessidades especiais muito bem atendidas e terá sua adaptação a nova vida muito facilitada e com sua sobrevivência totalmente garantida, sem pressões terá tempo suficiente a um bom processo de reabilitação. Conseguirá então com certa facilidade uma recolocação numa atividade mais adequada a sua nova condição. É um PORTADOR DE NECESSIDADES ESPECIAIS.
É por isso que eu afirmo que primeiro temos um DEFICIENTE ou PORTADOR DE DEFICIÊNCIA. Será sempre um deficiente para desempenhar sua função. Enquanto no segundo caso teremos, um PORTADOR DE NECESSIDADES ESPECIAIS, que quando supridas, TERÁ facilidade em encontrar o seu ligar ideal de trabalho ou então como vemos abaixo:
MARIZA: “Meu problema físico é ruim, né? Mas o que fazer, Deus quis assim, então é para ser assim, né?...Não trabalho, não adianta....Antes eu trabalhava , mas sem registro”
Percebe-se no, depoimento, acima muita resignação, e tendo como justificativa motivos religiosos, próprios das camadas mais populares. Respostas ou colocações como estas foram muito comuns durante todo o trabalho de implantação do PROJETO DE REABILITAÇÃO SIMPLIFICADA NA CIDADE DE RIO CLARO-SP, patrocinado pelo MOBRAL-SP. Este tipo de comportamento é de um atavismo considerável, o que dificulta qualquer ação proposta a partir de arcabouços científicos puramente teóricos no campo das deficiências, que, aliás, em termos de Brasil são escassos.
É preciso ter em mente que o individuo das classes sociais mais baixas, além da deficiência pessoal apresenta também uma deficiência anterior que é a deficiência social, com tudo o que também é limitante, como o analfabetismo, a desnutrição e outros. Assim sendo, esta pessoa, com certeza terá dificuldades de acesso a um serviço de reabilitação mínimo necessário quanto mais aos métodos mais modernos de reabilitação com toda a sua tecnologia utilizada nos aparelhos auxiliares tão necessários a uma verdadeira reintegração social, cujo custos são elevados até para os padrões de uma classe mediana.
Outro ponto muito importante a ser destacado é que geralmente, a população das camadas sociais, mais baixas geralmente habitam a periferia das cidades onde as condições ambientais são totalmente inadequadas a qualquer individuo que venha ter uma seqüela limitante. Por exemplo, um cadeirante, ou qualquer pessoa numa cadeira de rodas terá imensa dificuldade para se locomover numa casa de qualquer conjunto habitacional, construída para as classes mais baixas. Sem contar ainda, que geralmente moram em locais de ruas não pavimentadas, cuja locomoção já é difícil para uma pessoa considerada normal, imagine um portador de deficiência.
Em síntese o que pretendo demonstrar é que uma seqüela limitante só torna realmente uma deficiência ou uma deficiência se torna uma incapacidade, quando, um individuo entra em contato com o meio inadequado a sua condição. Ou seja, só existe uma deficiência na interatividade de um individuo com um meio inadequado.
Paradoxalmente a tudo que foi dito, ou existem e poderemos ver alguns “milagres”, onde alguns portadores de deficiência das camadas mais populares que após o infausto acontecido, passaram a ser o esteio da família com, melhorias na sua condição social, que embora, hajam, exceções que confirmam a regra são dignos de nota, na medida em que mostra a capacidade humana de reverter algumas situações bastante adversas em vitórias consideráveis. Porém neste caso é preciso também ficar atento, para não transformar o individuo em super-herói, o que geraria desconforto e poderia por tudo a perder. Mesmo porque a figura do super-herói na maioria das vezes não é duradoura e então geraria uma terrível frustração individual. Podemos nos recordar por exemplo da professora, que perdeu as duas pernas num acidente náutico e de uma hora transformou-se em celebridade uma verdadeira heroína, exemplo de coragem. Esteve, presente em várias mídias dando depoimentos fantásticos, era a personalidade do ano. E agora por onde anda essa senhora? O que será que aconteceu com ela? Não podemos afirmar nada, mas existe uma grande possibilidade dela ter caído no ostracismo e ter se tornado uma pessoa frustrada por causa do “esquecimento” midiático não é mesmo?
Agora mesmo nas camadas mais diferenciadas da sociedade existem aqueles que apresentam sentimentos contraditórios uma vez que ora acreditam que a deficiência trouxe uma sensação de que a vida melhorou, ora acham que uma deficiência traz em si mesma uma tristeza natural devido as limitações impostas. Creio eu, que tudo depende da postura de uma equipe interdisciplinar de reabilitação. Se a equipe mantiver uma postura coerente, e sincera a ambigüidade com certeza não aparecerá, porém o que é mais comum pelo menos na nossa cultura médica e paramédica. Vamos então ver os depoimentos abaixo:
JOÃO CARLOS: "Descobrir o que gosta de fazer é essencial para qualquer pessoa, mas para o deficiente é vital. No meu caso, por exemplo, a paraplegia abriu as portas para aquilo que gosto de fazer que, contesta o que é comum, pois era economista e não estava satisfeito com a profissão. Trabalhava meio contrariado. Após a minha deficiência, passei a ter mais liberdade para me descobrir. Eu sei que aminha paraplegia foi de fato muito paradoxal, mas é fato real e acho que existam outros casos semelhantes. Entretanto, tenho plena consciência de que para a grande maioria isto não acontece, muito pelo contrário é muito difícil mesmo. Chega a ser cruel.”
Veja que este depoimento é muito revelador, primeiro porque não é preciso ficar com uma deficiência para se descobrir e, procurar, uma atividade, mais interessante na vida. E dá a impressão de estarmos diante de um quadro similar a tão famosa Síndrome de Estocolmo, onde a vítima se torna amiga do inimigo, pois vemos o João Carlos quase defendendo a tese de que é bom tornar-se um paraplégico, porém logo a seguir no próximo depoimento, fica claro esta contradição. Vejamos:
JOÃO CARLOS: “Nunca me senti revoltado naquilo que a palavra expressa. Não no sentido de brigar com as pessoas, de brigar com a vida e de brigar comigo mesmo. A minha revolta foi sempre uma grande tristeza que eu conservo até hoje. Acho até que não exista um deficiente, que não seja triste porque não nascemos para ser deficientes, nascemos para ter liberdade física total, que todos têm.”
Nestes dois depoimentos do João Carlos temos basicamente uma síntese de como numa classe economicamente diferenciada a deficiência em alguns momentos torna-se até interessante, pois não tendo a necessidade de lutar pela a sobrevivência o portador de deficiência passa a ser o foco das atenções e isto é por si só é gratificante, mas ao mesmo tempo ele se percebe triste pois, apesar de se o foco das atenções ele se torna limitado em suas atividades de liberdade, mesmo que tenha ao seu redor um meio ambiente bastante adequado as suas condições.
Em síntese fica claro que uma seqüela limitante se torna muito mais deficiência, para o individuo economicamente menos favorecido devido as condições do seu meio inadequado e com isso a possibilidade de se tornar um coitadinho é maior enquanto a pessoa com uma mesma seqüela, mas das camadas sociais mais altas, portanto em um meio-ambiente adaptado terá uma diferença apenas podendo se tornar um super-herói, pela suas atividades consideradas como atos de superação.
Em qualquer das situações, cria-se uma situação delicada para o portador de deficiência. Os dois perdem a sua condição de ser apenas um ser humano diferente, que aliás é muito saudável, pois são as diferenças características essenciais da vida. l
Existem portadores de deficiência e PORTADORES DE NECESSIDADES ESPECIAIS, muito embora essas duas expressões signifiquem a mesma coisa, eu as diferencio porque, a classe econômica a que pertencem é que vai dar o tom das dificuldades de adaptação do portador de uma seqüela limitante. Assim o portador de uma mesma seqüela pode ter mais ou menos dificuldades de se adaptar a sua nova vida.
Sabemos que num país como o nosso, com disparidades econômicas monstruosas, uma seqüela limitante influi e de forma substancial na capacidade de sobrevivência do individuo. Assim um trabalhador braçal,sempre de uma classe social baixa, que sofre um acidente com consequências limitantes, ele se encontrará posteriormente numa situação precária, pois não conseguirá mais emprego e ficará dependendo do sistema de previdência social que como sabemos é de má a péssima qualidade. É um PORTADOR DE DEFICIÊNCIA.
Enquanto isso, aquele indivíduo que possa sofrer o mesmo tipo de acidente, com o mesmo tipo de seqüela e que pertença a uma classe social mais alta e que tenha conseguido estudar melhor, passa a ter suas necessidades especiais muito bem atendidas e terá sua adaptação a nova vida muito facilitada e com sua sobrevivência totalmente garantida, sem pressões terá tempo suficiente a um bom processo de reabilitação. Conseguirá então com certa facilidade uma recolocação numa atividade mais adequada a sua nova condição. É um PORTADOR DE NECESSIDADES ESPECIAIS.
É por isso que eu afirmo que primeiro temos um DEFICIENTE ou PORTADOR DE DEFICIÊNCIA. Será sempre um deficiente para desempenhar sua função. Enquanto no segundo caso teremos, um PORTADOR DE NECESSIDADES ESPECIAIS, que quando supridas, TERÁ facilidade em encontrar o seu ligar ideal de trabalho ou então como vemos abaixo:
MARIZA: “Meu problema físico é ruim, né? Mas o que fazer, Deus quis assim, então é para ser assim, né?...Não trabalho, não adianta....Antes eu trabalhava , mas sem registro”
Percebe-se no, depoimento, acima muita resignação, e tendo como justificativa motivos religiosos, próprios das camadas mais populares. Respostas ou colocações como estas foram muito comuns durante todo o trabalho de implantação do PROJETO DE REABILITAÇÃO SIMPLIFICADA NA CIDADE DE RIO CLARO-SP, patrocinado pelo MOBRAL-SP. Este tipo de comportamento é de um atavismo considerável, o que dificulta qualquer ação proposta a partir de arcabouços científicos puramente teóricos no campo das deficiências, que, aliás, em termos de Brasil são escassos.
É preciso ter em mente que o individuo das classes sociais mais baixas, além da deficiência pessoal apresenta também uma deficiência anterior que é a deficiência social, com tudo o que também é limitante, como o analfabetismo, a desnutrição e outros. Assim sendo, esta pessoa, com certeza terá dificuldades de acesso a um serviço de reabilitação mínimo necessário quanto mais aos métodos mais modernos de reabilitação com toda a sua tecnologia utilizada nos aparelhos auxiliares tão necessários a uma verdadeira reintegração social, cujo custos são elevados até para os padrões de uma classe mediana.
Outro ponto muito importante a ser destacado é que geralmente, a população das camadas sociais, mais baixas geralmente habitam a periferia das cidades onde as condições ambientais são totalmente inadequadas a qualquer individuo que venha ter uma seqüela limitante. Por exemplo, um cadeirante, ou qualquer pessoa numa cadeira de rodas terá imensa dificuldade para se locomover numa casa de qualquer conjunto habitacional, construída para as classes mais baixas. Sem contar ainda, que geralmente moram em locais de ruas não pavimentadas, cuja locomoção já é difícil para uma pessoa considerada normal, imagine um portador de deficiência.
Em síntese o que pretendo demonstrar é que uma seqüela limitante só torna realmente uma deficiência ou uma deficiência se torna uma incapacidade, quando, um individuo entra em contato com o meio inadequado a sua condição. Ou seja, só existe uma deficiência na interatividade de um individuo com um meio inadequado.
Paradoxalmente a tudo que foi dito, ou existem e poderemos ver alguns “milagres”, onde alguns portadores de deficiência das camadas mais populares que após o infausto acontecido, passaram a ser o esteio da família com, melhorias na sua condição social, que embora, hajam, exceções que confirmam a regra são dignos de nota, na medida em que mostra a capacidade humana de reverter algumas situações bastante adversas em vitórias consideráveis. Porém neste caso é preciso também ficar atento, para não transformar o individuo em super-herói, o que geraria desconforto e poderia por tudo a perder. Mesmo porque a figura do super-herói na maioria das vezes não é duradoura e então geraria uma terrível frustração individual. Podemos nos recordar por exemplo da professora, que perdeu as duas pernas num acidente náutico e de uma hora transformou-se em celebridade uma verdadeira heroína, exemplo de coragem. Esteve, presente em várias mídias dando depoimentos fantásticos, era a personalidade do ano. E agora por onde anda essa senhora? O que será que aconteceu com ela? Não podemos afirmar nada, mas existe uma grande possibilidade dela ter caído no ostracismo e ter se tornado uma pessoa frustrada por causa do “esquecimento” midiático não é mesmo?
Agora mesmo nas camadas mais diferenciadas da sociedade existem aqueles que apresentam sentimentos contraditórios uma vez que ora acreditam que a deficiência trouxe uma sensação de que a vida melhorou, ora acham que uma deficiência traz em si mesma uma tristeza natural devido as limitações impostas. Creio eu, que tudo depende da postura de uma equipe interdisciplinar de reabilitação. Se a equipe mantiver uma postura coerente, e sincera a ambigüidade com certeza não aparecerá, porém o que é mais comum pelo menos na nossa cultura médica e paramédica. Vamos então ver os depoimentos abaixo:
JOÃO CARLOS: "Descobrir o que gosta de fazer é essencial para qualquer pessoa, mas para o deficiente é vital. No meu caso, por exemplo, a paraplegia abriu as portas para aquilo que gosto de fazer que, contesta o que é comum, pois era economista e não estava satisfeito com a profissão. Trabalhava meio contrariado. Após a minha deficiência, passei a ter mais liberdade para me descobrir. Eu sei que aminha paraplegia foi de fato muito paradoxal, mas é fato real e acho que existam outros casos semelhantes. Entretanto, tenho plena consciência de que para a grande maioria isto não acontece, muito pelo contrário é muito difícil mesmo. Chega a ser cruel.”
Veja que este depoimento é muito revelador, primeiro porque não é preciso ficar com uma deficiência para se descobrir e, procurar, uma atividade, mais interessante na vida. E dá a impressão de estarmos diante de um quadro similar a tão famosa Síndrome de Estocolmo, onde a vítima se torna amiga do inimigo, pois vemos o João Carlos quase defendendo a tese de que é bom tornar-se um paraplégico, porém logo a seguir no próximo depoimento, fica claro esta contradição. Vejamos:
JOÃO CARLOS: “Nunca me senti revoltado naquilo que a palavra expressa. Não no sentido de brigar com as pessoas, de brigar com a vida e de brigar comigo mesmo. A minha revolta foi sempre uma grande tristeza que eu conservo até hoje. Acho até que não exista um deficiente, que não seja triste porque não nascemos para ser deficientes, nascemos para ter liberdade física total, que todos têm.”
Nestes dois depoimentos do João Carlos temos basicamente uma síntese de como numa classe economicamente diferenciada a deficiência em alguns momentos torna-se até interessante, pois não tendo a necessidade de lutar pela a sobrevivência o portador de deficiência passa a ser o foco das atenções e isto é por si só é gratificante, mas ao mesmo tempo ele se percebe triste pois, apesar de se o foco das atenções ele se torna limitado em suas atividades de liberdade, mesmo que tenha ao seu redor um meio ambiente bastante adequado as suas condições.
Em síntese fica claro que uma seqüela limitante se torna muito mais deficiência, para o individuo economicamente menos favorecido devido as condições do seu meio inadequado e com isso a possibilidade de se tornar um coitadinho é maior enquanto a pessoa com uma mesma seqüela, mas das camadas sociais mais altas, portanto em um meio-ambiente adaptado terá uma diferença apenas podendo se tornar um super-herói, pela suas atividades consideradas como atos de superação.
Em qualquer das situações, cria-se uma situação delicada para o portador de deficiência. Os dois perdem a sua condição de ser apenas um ser humano diferente, que aliás é muito saudável, pois são as diferenças características essenciais da vida. l

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