sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

NASCIMENTO, INFÂNCIA...

....ADOLECÊNCIA, ADULTO E TERCEIRA IDADE (continuação)
OBS: PARA MELHOR ENTENDER ESTA POSTAGEM, QUE É UMA CONTINUAÇÃO LEIA AS ANTERIORES, ABAIXO.

Após o depoimento do João Carlos, de que quando uma instalação de uma deficiência vem uma nova vida mesmo, é preciso tomar muito cuidado com o problema familiar subjacente, uma vez que o ambiente familiar não está preparado para receber e aceitar um membro com deficiência. Por isso eu sempre afirmo que um bom processo de reabilitação, tem de ter em seu conteúdo: atuação junto aos familiares e se possível estendido à família ampliada (tio, tia e avós) e amigos íntimos.
Deve-se entender que uma deficiência quando ocorre, no nascimento, implica, na maioria das vezes, numa mudança brusca nos planos de vida, maior do que a esperada, e, e envolvido com componentes emocionais consideravelmente dramáticos e de difícil assimilação, que fatalmente necessitará de uma equipe interdisciplinar bem afinada, para que a família não se desintegre como um todo.
Neste caso podemos afirmar que o maior empecilho ao desenvolvimento de um bom processo de reabilitação é a rejeição que poderá surgir, geralmente manifestada pelo seu oposto que é super-proteção, como fica claro nos depoimentos abaixo:
IZAURA: “Bem na, minha opinião, o maior problema de uma criança deficiente é a família. Sua família é um caso muito sério mesmo. Sem ela o restante se resolve com a maior facilidade, porque para mim a super proteção que recebi, tinha muito de rejeição. Era o que eu percebia e sentia, tanto que quando estava na AACD, tudo corria bem. Sempre que tinha de sair para passar as férias com a família eu não gostava. No primeiro dia tudo bem, ganhava presentes, já no segundo dia queria voltar com meus presentes, voltar a minha realidade.”
SAMUEL: “Na família existe uma coisa de não acreditar na gente. O problema é que, quase sempre a família não acredita e tem medo de colocar-nos na rua, no mundo. É o problema da hiper-proteção, né?"
O que temos percebido, é que o fato de nascer uma criança com deficiência gera nos pais um grande sentimento de culpa: “Como fui gerar alguém assim?” ou “o que fiz para merecer esta sina?" Estas atitude é reforçada por atitude de parentes e amigos próximos, através de veladas insinuações e citações de casos.
Pela nossa experiência, podemos afirmar que o aparecimento desta dupla antinômica rejeição/super proteção, segue sempre um mesmo enredo. Isto ocorre muito mais por causa da inexistência de um sistema de orientação e apoio (este livro foi escrito em 1992, e até hoje não mudou muita coisa não), do que por culpa exclusiva dos pais. E começa no exato momento em que o veredito cruel é dado, geralmente pelo médico responsável pelo parto e, sem maiores informações .
A primeira reação é a de não acreditar no que está sendo falado. Negar ao máximo, é a primeira tentativa de defesa contra o que se ouve e o que se vê de fato. Não funcionando, pois, o real sempre se opõe ao ideal; inicia-se entre os progenitores um surdo jogo onde cada um procura jogar a culpa no outro. Aliás, o mesmo acontece quando não há o nascimento e um filho desejado, após um longo período de convivência.
Logo a seguir, percebe-se uma insatisfação generalizada e que, ao procurar a preservação da união conjugal, a culpa acaba caindo sobre a própria criança. É muito comum em consultas ouvir: “Se não fosse pelo problema do meu filho, meu casamento com certeza não teria desmoronado”. Nada, mais natural, portanto, que se rejeite a criança. Agora como rejeição ao seu próprio filho, é um grande pecado em nossa sociedade, dita civilizada, ela se “transforma” no seu par oposto, que é a super-proteção e, que criará um clima de opressão ao portador de deficiência, o que dificultará o máximo o seu desenvolvimento saudável dentro das próprias limitações. Nas sociedades consideradas selvagens, é comum a eliminação, pura e simplesmente do nascituro com uma deficiência. Os depoimentos abaixo servem para elucidar um pouco esse enredo bastante paradoxal:
JOÃO BATISTA: “Sei por ouvir dizer, que o aparecimento de uma deficiência numa família constitui um fator de desagregação familiar. Em congressos e seminários que participo sempre é apresentado um caso. Sempre ouço falar que fulano ou sicrano se separou por causa do filho que nasceu com uma deficiência. Mas por experiência própria não posso dizer nada, pois na minha família nada disso aconteceu ou eu não percebi nada. Talvez porque minha mãe tenha segurado todas as barras, né?”
JOSÉ CARLOS: “Existe algumas situações que colaboram para um aparecimento de uma solidariedade, na estrutura da dinâmica familiar. O usual, entretanto, não é isto. Na grande maioria, os casais acabam se separando porque tem filhos com deficiência. E que sempre ou quase sempre, acaba arcando com a responsabilidade de cuidar da criança com deficiência é a mulher porque o homem acaba sempre se mandando.”
Entre os fatores que atrapalham mais o bom desenvolvimento da criança portadora de uma deficiência temos, a super-proteção característica de pais com sentimento de culpa, e que deve realmente ser muito bem trabalhada pela equipe interdisciplinar de reabilitação. A super-proteção, impede de uma forma considerável que a criança entre em contato globalizante com as dificuldades inerentes à sua condição humana mais limitada, mas que apesar das limitações pode e deve ser de riscos e prazer, o que é, comum a qualquer ser vivo, interrompendo também o contato prazeroso com seu corpo e o meio circundante, dando origem a um processo discriminatório a partir do próprio individuo com vemos no depoimento abaixo:
SSAMUEL: “A deficiência, se bem explorada, é um charme. O preconceito existe, mas é muito mais do deficiente, do que da sociedade A sociedade não é preconceituosa : ELA É MAL INFORMADA ...Eu construí meu trabalho sozinho. É lógico que existe o problema na família do deficiente. Então deve-se trabalhar com a família. Entretanto, muito do que acontece com o deficiente é culpa do próprio deficiente”
Veja que este depoimento é bastante contraditório, uma vez que ele observa a existência do preconceito, mas não sabe ao certo em quem deve recair a causa da existência, ora, o problema é da família, ora, é a ignorância da sociedade que termina culpando o próprio portador de deficiência pelos seus problemas. Este é um exemplo bem claro de um portador de deficiência mal reabilitado, pois, mostra o quanto a vítima se auto-condena, sem uma noção exata, de quem é a culpa, pela sua condição de excluído social. Além de afirmar que a deficiência se BEM EXPLORADA É UM CHARME, o que revela uma distorção de visão muito grande.

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