... ADOLESCÊNCIA
OBS: ESTE POST É PARTE DO LIVRO “A DEFICIÊNCIA NOSSA DE CADA DIA-DE COITADINHO A SUPER-HERÓI” DE MINHA AUTORIA, PARA ENTENDER MELHOR COMECE PELOS POSTs MAIS ANTIGOS.
A adolescência, cantada em prosa e verso como, uma das fases, mais difícil, do ser humano civilizado. É a etapa da vida onde as mudanças hormonais acontecem de forma acentuadas. É quando tudo acontece, ou, parece acontecer. Os prazeres são tão intensos como os problemas que são vividos dramaticamente de forma aguda.
A insegurança é a marca registrada da adolescência. O adolescente não é adulto (os adultos não o aceitam) e nem criança (ele nega esta condição). Mudanças físicas e fisiológicas ocorrem com tamanha grandeza que chegam a assustar. Não raro vemos um adolescente esbarrando em objetos por falta de consciência do seu próprio tamanho. É uma fase difícil por si só, como sabemos.
Podemos pois, inferir que a ocorrência de uma deficiência nesta etapa da vida torna-se extremamente dolorosa e de difícil assimilação, tanto para o individuo como para sua família e amigos mais chegados. Porém existe uma atenuante, se podemos considerar como tal, o fato de que se devidamente tratado o problema por uma equipe interdisciplinar, existirá tempo suficiente para uma mudança de planos de vida com as novas limitações imposta pela deficiência, e, com certeza poderemos então prognosticar uma vida harmoniosa e integrada ao seu meio.
Alguns depoimentos a seguir elucidam mais claramente a questão:
CÉLIA LEÃO: “... Agora, quando você já é adulta ou adolescente, como foi o meu caso, você já tem noção do que é ser normal e ficar deficiente, ou vir a ser um portador de deficiência. Penso ser muito mais difícil, pelo menos numa primeira fase. Depois já numa segunda etapa com uma consciência melhor, talvez fique mais fácil do que para a criança. Você já tem uma maior visão do mundo, já sabe discernir entre o certo e o errado. Aí quando você consegue colocar diretrizes na sua vida, fica mais fácil aceitar a vida como ela é. Mas de início, é muito difícil mesmo porque você já é quase adulto e toma aquele impacto, enquanto que para a criança tudo acaba virando festa mesmo.”
Notamos, uma certa dubiedade nas colocações, o que é muito comum num portador de deficiência que por mais adaptado que esteja, não se acomoda, e quer sempre procurar o melhor para si. Só a equipe técnica é que insiste numa aceitação, quase impossível, de uma deficiência (NOTA ATUAL: ASSIM ERA EM 1992, E POUCA COISA MUDOU NOS DIAS DE HOJE, BASTA ASSISTIR A NOVELA EM EXIBIÇÃO). O indivíduo pode até aceitar os limites impostos pela deficiência, nunca irá aceitar a própria DEFICIÊNCIA.
CARMEM: “Na, minha opinião, a deficiência, quando ocorre na adolescência que é uma fase já bastante crítica, pode causar problemas de difícil solução, pois o individuo está numa etapa de vida de definições de personalidade. Agora, na fase posterior, na fase adulta onde o homem está na sua fase mais produtiva, o impacto é maior”
Neste ponto é importante abordar a questão do luto, que para nós profissionais significa a elaboração de uma perda significativa, que ocorre sempre que há uma modificação brusca em nossa existência. A adolescência se caracteriza por ser essencialmente uma etapa de lutos. É o luto pela perda do seu corpo original (mudanças radicais no físico e na fisiologia do corpo); é o luto pela perda, da irresponsabilidade (aceita na criança e não na adolescência); é o luto pela perda da querida professora ( hoje absurdamente chamada de tia),pois é nessa fase que o individuo passa ter outros professores; enfim são inúmeros os lutos que deverão ser elaborados, a fim de proporcionar ao futuro adulto: HARMONIA E BEM ESTAR. Portanto, tenho a convicção que uma deficiência quando se instala nesta fase da vida, geralmente dramaticamente vivenciada, acarreta inúmeros problemas, que realmente deve tomar uma atenção redobrada da equipe interdisciplinar, para não comprometer a possibilidade da pessoa se tornar um ser produtivo integrado ao seu meio.
É bom chamar atenção ( ainda mais nos tempos atuais) que é na adolescência que o indivíduo está mais exposto a perigos que podem levar uma pessoa ser portadora de uma deficiência, é a violência, é a irresponsabilidade na direção de um veiculo automotivo, etc. É aqui que realmente o perigo ronda a existência dos nossos jovens, pois com tantas mudanças a ocorrência de uma deficiência , torna-se realmente uma trágica situação. Pode inclusive dar origem a um caos familiar, caso não haja concomitantemente uma atuação técnica na família também, a exigência de uma orientação familiar, quando não uma terapia torna-se imprescindível. Já presenciamos, caso de dissolução familiar. É necessário que se modifique (ainda hoje) a atuação da equipe interdisciplinar para que a ocorrência de uma deficiência, não torne a vida mais problemática do que é na realidade.
Como, em toda ocorrência de uma deficiência, aqui também ocorre a negação inicial do fato concretizado, porém, com uma carga dramática muito intensa. Só para os técnicos é que isso é amenizado erroneamente, AO TENTAR AMENIZAR , jogam a “sujeira” para baixo do tapete, o que causa um problema maior no futuro.
Paradoxalmente, temos logo a seguir momentos de grande euforia, porque, com a sua proverbial insegurança, o adolescente, que na maioria das vezes não se achava digno de afeto, passa a ser momentaneamente o foco das atenções, e isto é uma verdade até que a dura e cruel realidade prevaleça: os pais depois, já cansados, não dão mais a atenção requerida e se irritam com aquilo que acham ser birra de jovem mimado. Os amigos pouco a pouco retomam suas atividades normais, já não o visitam com tanta freqüência. Aí com se diz a ficha começa a cair, pois as limitações decorrentes de uma deficiência o impede de fazer aquilo que naturalmente fazia e a dependência de outros fica evidente. Vejamos o depoimento abaixo:
CÉLIA LEÃO: “... Todo o meu pessoal ia para uns barzinhos situados numa avenida conhecida em Campinas como a avenida da paquera. Antes do acidente eu também ia, mas depois ficou impossível, pelo menos antes da minha reabilitação.”
Os sentimentos que aparecem diante deste cenário nada agradável são geralmente de frustração, menos valor, ódio da situação chegando a um sentimento de inutilidade e de uma intensa e cruel INSEGURANÇA quanto ao seu futuro. É enfim um corpo de sentimento que toma sinais negativos, devido aos enormes conflitos que geram, transformando-se num emaranhado complexo de,auto -depreciação. É o coitadinho extremado, que beira a um sentimento de NÃO SER.
As tentativas solitárias de ultrapassar todo esse complexo quadro leva, o individuo, a situações mais dramáticas do que poderiam ser vivenciadas, só em decorrência da própria deficiência em questão. Você verá no caso abaixo, que não aceitando, em hipótese alguma sua nova situação Célia Leão, passou um grande tempo sem um processo de reabilitação:
CÉLIA LEÃO:... “Até ouvir que na Itália havia um ótimo centro de reabilitação. Fui para lá pensando em voltar andando, juntei todo o dinheiro, vendi o carro e outras coisas. Fiquei lá seis meses, os centros de reabilitação estavam todos lotados. Fiquei lá fugindo da minha deficiência.”
Veja que no caso acima ela perdeu um tempo grande e gastou uma quantidade de dinheiro desnecessária, por falta de apoio e orientação dos técnicos daqui responsáveis pelo seu caso.
É necessário, portanto, que ajam aqui mesmo equipes técnicas preparadas para prover a vítima de todas as condições facilitadoras a sua reabilitação e reintegração social (principalmente) evitando excessos de otimismo que podem ser tão prejudiciais quanto a falta de uma orientação ao individuo, à família e como já foi dito aos amigos mais íntimos, para que inicialmente se dê ao portador da deficiência um tempo, até ele se acostumar a sua nova vida.
Constata-se na prática, e isto ficará mais claro, no tema específico, que passado os primeiros momentos, há o afastamento gradativo dos antigos companheiros o que agrava o quadro exposto. É sempre aconselhável, portanto, na medida em que o processo de reabilitação aconteça, a substituição por outros parceiros que tenham os mesmos interesses.
É necessário que este processo de reabilitação, comece de imediato a instalação de uma deficiência, buscando a mostrar ao recém individuo portador de uma deficiência o seu real quadro e, deixando claro que na vida as transformações acontecem, mas que se bem tratadas serão assimiladas, e poderão proporcionar uma vida com boa qualidade.
CÉLIA LEÃO: ...“Lógico que eu preferia não ter ficado paraplégica, preferia ser normal. Não, acho que obtive grandes vantagens em me tornar uma paraplégica não. Mas fiz do limão uma limonada, na medida em que eu assumi a minha deficiência. Aí eu procurei viver bem intensamente, amar meu corpo, amar a minha vida.”
Entende-se das palavras da, Célia que foi só a partir do momento do reconhecimento que ela teria que viver uma nova vida que ela foi em frente, tentando renascer para a vida.É, pois necessário, com venho dizendo, não se perder tempo, tentando amenizar a dor do adolescente que adquire uma deficiência com falsas promessas de curas milagrosas, aliá como vem erroneamente ocorrendo na novela das oito em exibição atual, que presta um desserviço, a causa do portador de deficiência.